Desabafo de um gamer 8-bits

Os que me conhecem, sabem da fase que estou passando. Duas bandas, uma orquestra, uma produção de CD, uma pré-produção, shows durante o mês, aulas, samplers, loops, freelas… enfim, uma torrente gigante de trabalhos que faz meu expediente seguir ininterruptamente das 8h até, muitas vezes, além da meia-noite. Não estou me queixando – muito pelo contrário, eu adoro isso! -, mas realmente ando sem tempo de acompanhar minhas séries, ler meus livros, estudar o quanto queria ou jogar videogame. E exatamente por conta disso, quando me vi hoje com um tempinho livre depois de 3 semanas seguidas de puro workaholicism, não tive dúvidas do que fazer. Liguei o computador. Ao invés de abrir o Ableton, o Pro Tools ou o Sibelius, abri o JNes, meu emulador de NES favorito. Depois, escolhi o jogo: Ninja Gaiden 3. Putz! Foi hora de matar saudades de um dos jogos mais divertidos e difíceis que tive o prazer de jogar – e cheguei a jogá-lo no videogame de verdade na época. Mas o interessante foi o que houve depois.

Enquanto jogava, percebi o real nível de dificuldade do jogo. 3 vidas (iniciais), uma barra de energia pequena, um tempo de 250 segundos por fase (que transcorrem na relação de uns 3 segundos do jogo para cada segundo real), sendo que cada fase tem umas 5, 6 telas, cada uma delas apinhada de inimigos, dos lentos aos rápidos, dos fracos aos fortes, dos que só tem ataques corporais aos que atiram… e tudo isso sendo enfrentado por seu personagem, Ryu Hayabusa, ninja descendente do Clã dos Dragões, mas que no jogo só conta com sua espada de curtíssimo alcance e uns poderes que requerem uma espécie de “mana” de ativação (mana esse que você começa com apenas 40 pontos e que, dependendo do poder, uma ativação pode consumir uns 20 pontos de uma vez!). Em suma, um jogo DIFÍCIL, fazendo jus a todas as letras maiúsculas. Jogando isso, pensei: “Como eu conseguia jogar isso quando tinha 12 anos, no videogame, sem save states que me permitem voltar em qualquer ponto do jogo a qualquer instante, e ainda por cima ZERAR nessas condições?”

Essa é a grande graça e diferença principal dos videogames antigos para os novos. Hoje em dia nada mais é feito para a possibilidade de perder. Eu joguei recentemente (e com muitos anos de atraso já) o Final Fantasy XII, do PS2. O jogo é lindo (e me disseram que o XIII é ainda mais!), mas sinceramente, é impossível perder naquele jogo. Durante toda a minha rota no RPG, que se estendeu por mais de 130 horas de jogo, acho que vi a tela de Game Over só uma vez e sofri mesmo com dois ou três combates. De resto, foi tudo muito fácil. Tão fácil que eu me peguei diversas vezes bocejando de tédio no meio do jogo. Totalmente o contrário de mim hoje jogando meu bom e velho nintendinho. Eu xingava o jogo, perdia vidas e vidas, não acertava o maldito golpe… mas me diverti como há muito não me divertia!

Pôxa, perder faz parte da vida! E ver essa possibilidade batendo bem ali, a cada porta atravessada, a cada adversário enfrentado, gera uma descarga de adrenalina inigualável. Não fosse por isso, o jogo não teria 3/4 da diversão que tem. Fato esse que é justamente o mal que acomete a maioria esmagadora dos jogos atuais. Essa impossibilidade de perder nos jogos atuais é, além de triste, entediante e reflete nada mais, nada menos que a realidade de nossa sociedade superprotetora na qual o filho da família mora no apartamento perfeito, com acesso à internet 24 horas por dia para ele se sentir ligado ao mundo, mas sem poder sair para o mundo real que existe além da porta. De que adianta ter o gráfico perfeito, a trilha perfeita, o ambiente perfeito, a jogabilidade perfeita, se você sabe que, ao ligar o videogame, vai jogar um jogo que você vai invariavelmente ganhar? Que tipo de desafio real um jogo desse tipo pode trazer para sua vida? Pra mim, soa como “Não se preocupe. O mundo lá fora é fácil e te mostra todas as soluções, tal qual aqui. E em todo caso, você sempre pode dar um save antes”. Sinto informar, mas não tem save point aqui fora não. E, se tem, nunca ninguém achou!

Exatamente por isso que eu sou e sempre serei fã dos 8-bits. Quem nunca sofreu nas mãos de Tartarugas Ninja 2, Mega Man 1, Castlevania 3, Metroid, Paperboy, Little Nemo Dream Master e, como citado, Ninja Gaiden 3 (que aproveito para citar que esse é ainda mais fácil que seus antecessores), não sabe o prazer que é ligar um videogame e ter que suar muito para ver o tão querido The End ao invés do tão constante Game Over.